Alceu 80 girassóis: o palco como território multilinguagens
Oblíquo e Radiográfico assinam a direção de arte e concepção cenográfica de “80 Girassóis”, de Alceu Valença O encontro entre a obra de Alceu Valença e os estúdios Oblíquo e Radiográfico ganha forma em “80 Girassóis”, espetáculo que traduz para a cena a potência multilinguagens do artista. Com direção de arte e concepção cenográfica assinadas […]
Oblíquo e Radiográfico assinam a direção de arte e concepção cenográfica de “80 Girassóis”, de Alceu Valença
O encontro entre a obra de Alceu Valença e os estúdios Oblíquo e Radiográfico ganha forma em “80 Girassóis”, espetáculo que traduz para a cena a potência multilinguagens do artista. Com direção de arte e concepção cenográfica assinadas pelas duas casas, o projeto dialoga diretamente com a proposta cênica e musical do show. A cenografia estruturada a partir de um telão em formato de girassol – símbolo da turnê e metáfora dos oitenta giros solares de sua vida – surge como uma grande alegoria central do espetáculo, criando um palco em permanente mutação.
Quando falamos de Alceu Valença, falamos de um grande encenador – no sentido mais amplo da palavra. Alceu interpreta, dirige, corporifica o espetáculo. Sua presença nunca se limitou ao canto: ocupa o palco em multilinguagens desde sempre. Em 28 de dezembro de 1975, Nelson Motta escreveu sobre ele como uma das grandes revelações daquele ano no jornal O Globo:
“Numa área onde o rock se confunde com todos os sons do Brasil e do mundo, ocorreu certamente a revelação mais importante do ano – Alceu Valença, que explodiu com o seu som nordestino-indiano-inglês-árabe-all over. Com uma originalidade extraordinária e uma presença cênica rara entre os quase sempre estáticos cantores brasileiros, geralmente pouco preocupados com o lado teatral que existe num cantor, quer ele queira ou não, a partir do momento em que pisa num palco e há pessoas na plateia para aquele número de mágica, Alceu revelou um lado poderoso de intérprete e uma excelente perspectiva de autor musical.”
Com direção artística de Rafael Todeschini, diretor e cofundador do estúdio Oblíquo, 80 girassóis é um espetáculo de multilinguagens: “Trabalhamos com a obra do Alceu desde 2009 e, de lá para cá, realizamos inúmeros projetos de identidade e narrativa da sua obra. Este é, com certeza, o mais complexo de todos, pois adentramos no território sagrado de Alceu, o palco. Buscamos criar uma experiência que traduza as multilinguagens que Alceu cria. Além de musical, “80 girassóis” é teatral, cinematográfico, literário e pictórico. E, ao lado do Radiográfico, exploramos cada uma dessas linguagens”.
Com a parceria em “80 Girassóis”, o Radiográfico reforça sua atuação no universo da música. Em 2025, o estúdio conquistou o Grand Prix do BDA com a identidade visual em movimento da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, consolidando o design como elemento central na construção de experiências culturais contemporâneas. “Ao lado dos parceiros da Oblíquo, estamos felizes por desenvolver um projeto para um artista com a dimensão de Alceu Valença. É uma grande responsabilidade traduzir visualmente a potência poética e toda a energia que atravessam sua obra”, destacam os sócios-fundadores do Radiográfico, Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia.
Mais do que ilustrar as músicas, buscou-se potencializar seus universos poéticos. Cada momento visual foi pensado em sintonia fina com o tema, o ritmo e a atmosfera de cada composição, criando uma experiência em que música, imagem e a presença cênica de Alceu se entrelaçam. O resultado é um espetáculo musical, teatral, cinematográfico, literário e pictórico, que percorre diferentes experiências do espaço de interação entre o público e o artista.
Girassol Cinematográfico
O show começa com uma abertura cinematográfica, com o depoimento do pai e da mãe de Alceu, falando da divergência sobre a crença na carreira artística do filho, ao som de Edipiana nº 1. Além disso, Aboio é ambientado com imagens de A Luneta do Tempo, filme do próprio Alceu, de 2015, e Tesoura do Desejo conta com imagens de Luis Abramo e Juba Valença. A Banda de Pife, em que os músicos são apresentados, traz trechos de Nordeste: cordel, repente e canção, de Tânia Quaresma, filme histórico sobre a cultura expressiva dos cantadores, emboladores, cordelistas, violeiros e repentistas dos interiores do Nordeste no ano de 1975. E também outro filme do ano anterior (1974) Zabumba, Orquestra Polular do Nordeste, de Zelito Viana, que expressam um universo semelhante. Embolada do Tempo tem registros fotográficos do Alceu menino até os dias de hoje, numa montagem arrebatadora do tempo. Destaque especial para Espelho Cristalino, que será representada pelo icônico ensaio fotográfico realizado por Cafi no contexto do lançamento do disco homônimo — momento em que imagem e música se fundem de maneira definitiva na construção do próprio Alceu como personagem de sua obra: “ver a luz do passado e do presente, viajar pelas veredas do céu, pra colher três estrelas cintilantes e pregar nas abas do meu chapéu”.
Girassol Teatral
O show apresenta propostas teatrais em músicas como Girassol, que inspirou o título da turnê e apresenta uma proposta imersiva de um pôr do sol com o horizonte do mar. Assim como em Solidão, que traz a lua, os astros e o universo como tema melancólico, e em Anunciação, as nuvens que trazem o tom celestial da música.
Táxi Lunar quebra a quarta parede ao convocar o público a participar conjuntamente de uma catarse coletiva. A homenagem ao principal parceiro musical de Alceu, Paulinho Rafael, emociona com o solo que ele criou para Hino do Elefante, performado por Zi Ferreira, e com o canto vigoroso de Alceu. Cabelo no Pente traz a imersão pelas ruas do passado e o pé caminhador de Alceu, e Pelas Ruas Que Andei homenageia o Recife antigo, sendo finalizado com a bandeira de Pernambuco.
Girassol Literário
Em Agalopado, emergem elementos do imaginário de Ariano Suassuna, numa identificação poética entre os dois artistas pela figura de Dom Quixote — o cavaleiro do sonho e da utopia. Coração Bobo incorpora o espírito junino através do corte e recorte das bandeirolas letradas de Catarina Dee Jah, que dão voz à letra ao coração do poeta que pipoca dentro do peito. Ao homenagear Luiz Gonzaga, Alceu resgata a tradição da oralidade do Rei do Baião, que fazia de suas músicas “contações de histórias”. O lirismo de Flor de Tangerina ganha corpo nas xilogravuras de J. Borges e J. Miguel, trazendo a delicadeza romântica da madeira talhada. É a partir dela que Alceu conta a narrativa de um poeta que está em busca do seu grande amor nas músicas seguintes.
Girassol Pictórico
Pagode Russo assume seu caráter onírico através das ambiências e personagens do artista olindense Getúlio Maurício, expandindo o delírio festivo da canção. Assim, como La Belle de Jour e a sua praia de boa viagem de Meton Joffily e Rafael Valença. Cavalo de Pau recebe os traços densos e emocionais da pintura de Elvira Freitas Lira. Em Estação da Luz e Sabiá, entram em cena as expressões gráficas de Virgolino e Marisa Lacerda, respectivamente, já profundamente associadas ao imaginário visual da obra de Alceu. Já Ciranda da Rosa Vermelha convoca o universo naïf de Edmar Fernandes, que recria uma Ilha de Itamaracá imaginária, afetiva e colorida. Nas carnavalescas Pirata José e Bicho Maluco Beleza, surgem as poéticas visuais de Marcos Amorim e Bajado, artistas que souberam traduzir como poucos a pulsação do Carnaval de Olinda. Em Tropicana, as obras de Sérgio Lemos reaparecem como matriz visual de inspiração de um dos mais emblemáticos sucessos do repertório de Alceu.
Apresentação: https://app.box.com/s/pfnenv1zpm5nccbxiwu8dyx20g4r9me6
Imagens: https://app.box.com/s/9uvc3vp4cbvfd7b71gf7b996ajox2qz3
Sobre o Radiográfico
Fundado em 2005 por Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia, o estúdio Radiográfico é um dos grandes nomes do design autoral no Brasil. Com uma linguagem própria que entrelaça arte, design e colaboração, o estúdio cria imagens que não apenas comunicam — mas emocionam, provocam e transformam.
De marcos como a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 à turnê Tempo Rei, de Gilberto Gil, passando por colaborações duradouras com a diretora Daniela Thomas e o programa educacional LIV, o Radiográfico constrói narrativas visuais com identidade e profundidade.
Com mais de mil projetos realizados e uma equipe multidisciplinar, o estúdio alia impacto cultural, consistência conceitual e inovação visual. Seu modelo criativo é sustentado por um tripé sólido — design, arte e colaboração — que permite navegar com fluidez entre o audiovisual, o gráfico, a cenografia e as experiências imersivas.
Em 2025, o Radiográfico celebra 20 anos reafirmando seu espírito experimental e autoral, enquanto amplia fronteiras e compartilha sua linguagem com novos públicos ao redor do mundo.
https://www.radiografico.com.br/
Sobre o Oblíquo
Fundado em 2010 por Erika Martins e Rafael Todeschini, o estúdio Oblíquo cria identidades e narrativas em inúmeras linguagens. Não há uma linha autoral que define o trabalho do estúdio, mas uma multiplicidade de experimentações que traduzem um propósito transversal. Na trajetória do estúdio foram atendidos clientes como Chás Leão, Verde Campo, Globo, Alceu Valença, Casa Estação da Luz, Queira Agroecologia, ICOM, Instituto Coca-Cola, Sistema OCB, Amata, Caixa Cultural, Keith Haring Foundation, Prefeitura do Rio de Janeiro entre outros. O estúdio se destacou com premiações nas últimas edições do Brasil Design Awards, Latin American Design Awards e na 14ª Bienal Brasileira de Design de 2024 nas categorias de branding, design gráfico, embalagem, ambientação e tipografia. Recentemente realizaram a curadoria e direção de arte da exposição “Alceu Valença, uma geografia visceral nordestina” que conta os mais de 50 anos de história do artista pernambucano na Casa Estação da Luz em Olinda, Pernambuco em 2024.
Créditos da foto: Rogério von Krüger
